quinta-feira, 10 de abril de 2008

A geração do ecrã

O texto que se segue é da escritora Alice Vieira, e foi publicado no JN a 30 de Março de 2008. Publico-o aqui por merecer a minha total concordância.

“Desculpem se trago hoje à baila a história da professora agredida pela aluna, numa escola do Porto, um caso de que já toda a gente falou, mas estive longe da civilização por uns dias e, diante de tudo o que agora vi e ouvi (sim, também vi o vídeo), palavra que a única coisa que acho verdadeiramente espantosa é o espanto das pessoas.

Só quem não tem entrado numa escola nestes últimos anos, só quem não contacta com gente desta idade, só quem não anda nas ruas nem nos transportes públicos, só quem nunca viu os "Morangos com açúcar", só quem tem andado completamente cego (e surdo) de todo é que pode ter ficado surpreendido.

Se isto fosse o caso isolado de uma aluna que tivesse ultrapassado todos os limites e agredido uma professora pelo mais fútil dos motivos - bem estaríamos nós! Haveria um culpado, haveria um castigo, e o caso arrumava-se.

Mas casos destes existem pelas escolas do país inteiro. (Só mesmo a Sr.ª ministra - que não entra numa escola sem avisar - é que tem coragem de afirmar que não existe violência nas escolas.)

Este caso só é mais importante do que outros porque apareceu em vídeo, e foi levado à televisão, e agora sim, agora sabemos finalmente que a violência existe!

O pior é que isto não tem apenas a ver com uma aluna, ou com uma professora, ou com uma escola, ou com um estrato social.

Isto tem a ver com qualquer coisa de muito mais profundo e muito mais assustador.

Isto tem a ver com a espécie de geração que estamos a criar.

Há anos que as nossas crianças não são educadas por pessoas. Há anos que as nossas crianças são educadas por ecrãs.

E o vidro não cria empatia. A empatia só se cria se, diante dos nossos olhos, tivermos outros olhos, se tivermos um rosto humano.

E por isso as nossas crianças crescem sem emoções, crescem frias por dentro, sem um olhar para os outros que as rodeiam.

Durante anos, foram criadas na ilusão de que tudo lhes era permitido.

Durante anos, foram criadas na ilusão de que a vida era uma longa avenida de prazer, sem regras, sem leis, e que nada, absolutamente nada, dava trabalho.

E durante anos os pais e os professores foram deixando que isto acontecesse.

A aluna que agrediu esta professora (e onde estavam as auxiliares-não-sei-de-quê, que dantes se chamavam contínuas, que não deram por aquela barulheira e nem sequer se lembraram de abrir a porta da sala para ver o que se passava?) é a mesma que empurra um velho no autocarro, ou o insulta com palavrões de carroceiro (que me perdoem os carroceiros), ou espeta um gelado na cara de uma (outra) professora, e muitas outras coisas igualmente verdadeiras que se passam todos os dias.

A escola, hoje, serve para tudo menos para estudar.

A casa, hoje, serve para tudo menos para dar (as mínimas) noções de comportamento.

E eles vão continuando a viver, desumanizados, diante de um ecrã.

E nós deixamos.”

Alice Vieira


E eu pergunto: - Até quando vamos nós continuar a atacar, desesperada e desnorteadamente, a poluição na foz do rio, enquanto, sistematicamente ignoramos as descargas poluentes junto à nascente?

6 comentários:

Manuel Rocha disse...

Questão pertinente, minha cara Pink!

Juntaria outra em complemento ao "onde": "como é que vamos atacar"?

Explico-me:

- 1972 : Zeca ( 16 anos antigo 5º ano do liceu ) estendeu ao comprido ( literalmente )com um murro entre os olhos ( merecidissimo ) em plena aula de matemática o respectivo prof ( Porco Em Pé, de sua alcunha);

- 1973 : Pacheco ( 16 anos, antigo 6º ano do liceu ) partiu com uma cabeçada ( objectiva e merecidissima) o nariz ao Madeira ( continuo ).


Quero eu com isto dizer que corroboro que estas questões nada têm de novo. Poderia enumerar muitas outras igualmente graves embora menos dolorosas bem presentes na minha memória. Portanto, não sei se estamos a falar exactamente do mesmo tipo de "poluentes", mas os efeitos não me parecem diversos.Diversas são as "contramedidas", pois nos casos em apreço o Zeca e o Pacheco NUNCA mais voltaram ao liceu ...;)

Concluo: a geração que está no ercrã é a nossa e não a deles, porque somos nós quem decretou obsoleta a autoridade.

Namasté !

Luis Correia disse...

concordo, lá diz o proverbio " de pequenino é que se torce o pepino ".

este é um posto que ando para fazer no meu blog sobre a geração pós-rasca... no fundo acho que a culpa acaba por ser nossa, e simplesmente por não termos tempo para dedicar aos nossos filhos.

ao entregarmos os 'piolhos' ao infantário aos quatro meses de idade, estamos a assinar a nossa própria sentença.

os psicologos dizem que a personalidade da criança se forma até aos 3 anos de idade e que se forem detectados comportamentos 'desviantes' após essa idade, dificilmente serão corrigiveis.

é minha opinião de que esta é uma questão fundamental na forma como vemos a vida, isto da vida 'in the fast lane' com a carreira acima de tudo, cria um enorme fosso entre nós e a criança.

como queremos entender os pequenos se não temos tempo para estar com eles e criar empatia?

Dieta disse...

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Anônimo disse...

Sem dúvida nenhuma de que é uma questão pertinente ..... :( infelizmente cada vez mais, e refiro que gostei da chamada " A geraçao do ecrã" as crianças sao "criadas" pelos ecras, o que significa que violencia, gera violencia ......... palavras para quê?

É a nossa sociedade

AP(",)

Anônimo disse...

Sempre houve quem pisasse o risco...mas, em tempos, quem o fizesse sujeitava-se ás consequências. E por vezes era grave. Os professores tinham autoridade para poder impor regras.

Hoje não é bem assim..

Mas o exemplo "vem de cima"!
Os filhos são o espelho da educação dos pais.

No pouco tempo que os pais tem para os filhos, é preciso incutirem-lhes bons princípios.
Demonstrarem-lhes que a vida em sociedade tem regras.
As crianças levam para o exterior o ambiente da vivência em família, e se em casa não há respeito nem educação, onde vai a criança aprender isso?

Há cerca de 15 anos, numa reunião de pais a directora de turma dirigiu-se a um dos presentes, referindo alguns factos relacionados com o comportamento e indisciplina do filho que era difícil de controlar.
Esse pai simplesmente respondeu á professora - a senhora que é a técnica de educação, eduque-o!

Atenção Pais: Por muito pouco tempo que possam dedicar aos vossos filhos não se demitam da vossa função de pais, é muito importante!

A situação é grave.
Que mundo queremos nós?

antonio disse...

Para te responder vou ver o que dizem no telejornal...