quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

A Cimeira do Clima


Estou triste! 
Afinal vi as esperanças que tinha (de que esta cimeira produziria um acordo vinculativo e com impacto global) totalmente goradas.
Foram duas semanas e 193 países em negociações e no fim não há acordo que nos valha. Li no "Público" que "no último dia da cimeira, os discursos dos líderes mundiais mostraram duas coisas: que todos dizem saber o que tem de ser feito para chegar a um acordo global e que cabe aos outros fazer o esforço que falta." Isto descreve muito sucintamente o que se passou em Copenhaga. Países pobres contra países ricos, os primeiros querem continuar o seu desenvolvimento económico e os segundos não o querem pôr em risco, através da implementação de medidas mais ou menos radicais (se bem que conscienciosas e necessárias) de combate à emissão de gases de efeito estufa.
É lamentável que o mundo ainda não consiga, politicamente, agir com unanimidade face aos perigos crescentes das alterações climáticas.
Dos poucos pontos favoráveis saídos desta cimeira foi o assumir de que a temperatura não deverá subir mais que os 2ºC em relação aos níveis pré-industriais. Ainda assim há quem afirme que, mesmo estes 2ºC colocam algumas ilhas em risco de desaparecimento, devido à esperada subida do nível do mar. 
Havia ainda a esperança de que os EUA fossem mais longe na sua proposta de cortes das emissões poluentes mas tal não veio a verificar-se. O Presidente Obama ficou-se pelos 17% em relação aos valores de 2005, valor que havia já sido anunciado antes da cimeira. Acredito que por sua vontade até fosse capaz de se comprometer com mais mas este foi o valor ditado pela Câmara dos Representantes e como é obvio, Obama não podia fazer melhor. O Japão portou-se bem e assumiu que ajudaria os países em  desenvolvimento com 15 mil milhões de dólares (10,4 mil milhões de euros) entre 2010 e 2012. Este tema das ajudas financeiras aos países menos desenvolvidos, para os auxiliar a se adaptarem às alterações climáticas, foi aliás o que obteve os melhores resultados. Foram já destinados 100 mil milhões de dólares por ano, a partir de 2020 para um fundo de apoio aos países pobres.
De qualquer forma, face às expectativas que havia em torno desta cimeira, podemos dizer que foi um tiro ao lado que está ainda longe do tiro certeiro de que a humanidade e o planeta precisam. 
Resta-nos esperar pela próxima conferência em Dezembro de 2010 na Cidade do México e ter fé de que daí saia finalmente um acordo visto que o Protocolo de Quioto termina já em 2012. 

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Nanotecnologia em Portugal



Em muitas das estatísticas das quais consta Portugal, aparecemos regra geral, nos últimos lugares das tabelas para as coisa boas e nos primeiros para as coisas menos boas. Uma tendência que é preciso as actuais gerações começarem a inverter. Afinal há que ter orgulho no nosso país e trabalhar para que isso seja possível.

No entanto, importa dizer, Portugal nem sempre fica na retaguarda. Há coisas muito positivas a acontecer, ou em vias disso, pelas quais podemos e devemos ficar satisfeitos e esperançados, de que mais e mais coisas venham engrossar esta lista e colocar-nos numa posição confortável, face ao resto da Europa e do mundo.

A título de exemplo menciono aqui o INL - Laboratório Internacional Ibérico de Nanotecnologia, que foi recentemente inaugurado em Braga.

30 milhões de euros de investimento inicial
200 cientistas provenientes de várias partes do mundo
100 estudantes de doutoramento
400 colaboradores
26 mil metros quadrados de área de construção
1200 metros quadrados destinados à micro e nanofabricação
30 milhões de euros de orçamento anual

Fruto de um acordo entre Portugal e Espanha, este laboratório permite a adesão de outros países do mundo, enquanto estados-membro.

O seu objectivo é desenvolver projectos em quatro áreas prioritárias da nanotecnologia. São elas: a nanomedicina, a monitorização ambiental e segurança e controlo de qualidade alimentar, a nanoelectrónica e a nanomanipulação molecular. Estas áreas de investigação eleitas como prioritárias, deverão produzir resultados com potencial de aplicação na medicina, no armazenamento de dados e novas formas de produzir e armazenar energia.

José Rivas Rey, catedrático em Física e investigador da Universidade de Santiago de Compostela, questionado sobre uma eventual revolução tecnológica, responde: " Agora que se discutem novos modelos económicos, julgo que as novas tecnologias vão dar uma ajuda, ao fazer surgir novos produtos, mais qualidade, melhores equipamentos, resíduos mais limpos, mais respeito pelo meio ambiente".

Para quem não está familiarizado com o que a nanotecnologia permite fazer, ficam alguns exemplos: bandas magnéticas dos cartões de crédito, os materiais das melhores raquetes de ténis, materiais especiais para automóveis e aviões ou ainda, na área da cosmética, os protectores solares compostos de nanopartículas, entre muitos outros.

"A nanotecnologia pode ser considerada como engenharia a uma escala atómica e molecular e estima-se que o investimento em nanotecnologia, já com imensos resultados práticos, venha a ter um grande impacto económico e social num futuro próximo".

Um projecto com futuro, desenhado para o futuro, inovador e que se pretende empreendedor, encontrando parcerias com universidades e empresas por esse mundo fora, ajudando a desenvolver novos e melhores produtos.

Um bom exemplo de como Portugal por vezes pode estar na linha da frente.



Fonte: Diário Económico

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Novo sistema de ensino precisa-se!


Numa entrevista à revista Pais e Filhos em 2005, Rubem Alves, conceituado pedagogo brasileiro manifestava-se dizendo que "a escola destrói as crianças". Segundo diz, "a minha impressão é a seguinte: houve um momento em que se tentou padronizar a escola. A ideia da linha de montagem. Pegar nos alunos e fazer com que todos aprendessem as mesmas coisas, ao mesmo ritmo, com o mesmo objectivo. Então criaram-se aqueles programas abstractos, padronizados. Abastractos porquê? Porque não respondem aos desafios do momento. Nós aprendemos o desafio. Aprendemos aquilo que naquele momento nos é importante. E isso não acontece com os programas. Eles são organizações abstractas de conteúdos, que não estão relacionados com os desafios das crianças."

Para Rubem Alves "é preciso que os professores se sintam fascinados por aquilo que estão a fazer, que eles brinquem com as crianças (...) A função do professor não é ensinar o que ele sabe, é ensinar as crianças a procurar aquilo que elas não sabem (...) A grande coisa da educação é ensinar as crianças e os adolescentes a pensar. A maioria dos problemas da sociedade se resolveria se os indivíduos tivessem aprendido a pensar."

Claro que Rubem Alves tem toda a razão e as suas palavras não carecem de nenhuma reflexão profunda para apurarmos a sua validade. Por isso, e como este blog se afirma como um blog optimista, lembrei-me de falar aqui de um dos sistemas de ensino mais humanizados e menos "linha de montagem" como chama Rubem Alves ao ensino público tradicional. Falo das escolas Waldorf.

As escolas Waldorf já existem um pouco por todo o mundo. Em Portugal apenas tenho conhecimento de uma no Algarve e de um Infantário em Alfragide.

São escolas privadas e um pouco dispendiosas mas o seu sistema de ensino é inovador. É um sistema criado originalmente pelo filósofo Rudolf Steiner em 1919. A aprendizagem é interdisciplinar, integrando elementos práticos, artísticos e conceptuais. A abordagem Waldorf privilegia o papel da imaginação e da criatividade na aprendizagem, tudo isto aliado ao pensamento analítico.

Pretende-se com esta abordagem, facultar às crianças e jovens uma base a partir da qual possam crescer e torna-se indivíduos livres, bem integrados e possuidores de uma moral forte.

A estrutura do modelo pedagógico resume-se mais ou menos assim:

- Infantário - a aprendizagem é essencialmente experiencial, imitativa e baseada nos sentidos, preferencialmente através de actividades práticas.

- Escola primária - aprendizagem focada na expressão artística e na imaginação desenvolvendo a vida emocional da criança através de um conjunto de artes visuais e de representação.

- Ensino Secundário  - a aprendizagem é focada no desenvolvimento da compreensão intelectual e ideais éticos tais como a responsabilidade social.

Para já exemplos como este ou o da escola Montessori são de louvar e encorajar.

Por cá, graças ao meu amigo "Gnomo", tive também conhecimento da "Escola da Ponte" em Vila das Aves, perto de Famalicão. Vejam aqui o seu projecto educativo.

Afinal há por aí alguns oásis onde se vivem excepções a um sistema de ensino massificado e descaracterizado. Vale a pena espreitá-los e manter a esperança de que num futuro mais ou menos próximo estas excepções venham a ser a regra.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Aprender a Morrer


 
Na nossa sociedade, o tema da morte é ainda um tabu. Somos educados e preparados para a vida mas nunca para a morte. O que é estranho porque a morte é uma inevitabilidade e faz parte da vida. Todos sem excepção iremos morrer um dia. Não há como evitá-lo. Daí que talvez fosse bom haver maior frontalidade no tratamento deste tema. Evitar falar da morte como se ela não existisse não nos torna mais felizes, apenas mais alheados de uma realidade incontornável.

Vivemos e somos educados como se a vida, como a conhecemos, fosse para sempre. Tudo isto é um contracenso porque tudo na natureza à nossa volta se move em ciclos de morte e renascimento e nós fazemos parte do todo que nos envolve.

Só esta concepção errónea da realidade é que justifica que por exemplo não saibamos lidar com as pequenas mortes de todos os dias, sejam elas materiais ou emocionais. Temos, ao contrário de alguns povos antigos e sábios, uma imensa dificuldade de viver em desapego. Vivemos na ilusão dos sentidos e agarrados a coisas que só possuímos por empréstimo enquanto por cá andamos.

Claro que, para quem acredita que a morte é o fim de tudo, a simples ideia de morrer deve ser assustadora. Falamos não só da morte do corpo físico mas também da morte do ego e todos sabemos que o ego não quer morrer porque ele existe para nos permitir accionar os mecanismos de sobrevivência.

Já para aqueles que, como eu e tantos outros, acreditam na reencarnação, a morte não é uma ameaça mas uma oportunidade, não é um fim mas um recomeço. Morrer é mergulhar em outras dimensões da realidade.

Seja como for, com ou sem reencarnação, a morte existe e é para todos. Lembram-se do anúncio do chocolate “Mars” em que um índio se preparava para a morte e dizia “Hoje é um bom dia para morrer”? Para este índio a morte não era nem tabu, nem mistério apenas um momento pelo qual todos iremos um dia passar. Com a diferença de que ele estava preparado.

sábado, 15 de agosto de 2009

A Sociedade do Futuro


Como será a nossa sociedade num futuro mais ou menos próximo?
Antes de mais perspectivam-se mudanças ao nível das lideranças. Isto porque a geração que actualmente ocupa os cargos chave, a dos Baby-Boomers (nascidos entre 1946 e 1964) está agora a iniciar a idade da reforma e começa a ser substituída pela Geração X (nascidos entre 1965 e 1976).

Esta nova geração tem um estilo muito próprio. Apesar de adultos gostam de se vestir como adolescentes, são mais descontraídos e menos sisudos que a geração que os precedeu, vocacionados para as novas tecnologias e ao contrário dos Baby-Boomers “trabalham para viver” não “vivem para trabalhar”. Quer isto dizer que valorizam bastante mais o factor tempo nas suas vidas.

Esta geração, constituída pelos trintões e quarentões do momento, tem fortes preocupações ambientais e energéticas, sente uma maior responsabilização pela sua saúde e bem estar, é exigente na qualidade de serviços e produtos, tem gostos minimalistas, procura fazer pequenos cursos ou workshops, é fã de eventos culturais, gosta de viajar, tem algum tipo de interesse ligado à espiritualidade, e não discrimina orientações sexuais.

Quanto ao seu estilo de liderança propriamente dito, há quem o classifique da seguinte forma:

Ecléctico: preferem construir pontes para agregar pessoas competentes, em vez de dividi-las previamente em classes ou ideologias.

Conciliador: procuram conhecer as diversas opiniões e encontrar um ponto de equilíbrio para atingir o consenso, mesmo em soluções que pareciam inicialmente contraditórias.

Pragmático: preferem tomar decisões a partir da análise de dados, examinando os temas de todos os ângulos e perspectivas.

Transparente: falam abertamente sobre os problemas e exigem sinceridade de todos os que trabalham consigo.

Deste modo está feito um primeiro esboço do que nos espera nas décadas vindouras em termos de liderança mas também em termos de hábitos e atitudes na esfera social e privada:

- Mais tempo para a casa, os filhos, a família e os hobbies
- Mais qualidade em detrimento da rapidez
- Mais tecnologia
- Mais preocupações ambientais
- Mais aprendizagem ao longo da vida
- Mais espaços de lazer e relaxamento
- Um estilo de liderança mais assertivo

Em alguns casos ter mais tempo vai significar ter menos dinheiro pelo que se espera também um decréscimo no consumismo exacerbado dos últimos anos.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

O Lado bom da crise



É verdade que esta está a ser uma crise penosa para muitos de nós e que, como qualquer crise, traz desconforto, perda de confiança e por vezes desespero, mas também é verdade que uma crise sempre encerra oportunidades. É delas que pretendo falar neste post.

Foi graças à crise que muitos corruptos caíram e que muita corrupção veio ao de cima, foi graças à crise que o mundo se começou a virar para a sustentabilidade a vários níveis nomeadamente a nível ambiental e social.

A crise surge como um momento de reflexão que nos obriga a re-equacionar posições e a re-avaliar decisões de fundo. A escalada da crise fez-se sentir nos mais diversos sectores, do preço dos combustíveis à escassez de matérias-primas e à falência das empresas e das famílias. Mas esta é também uma crise de valores.

Em última instância a crise fez-nos questionar um modelo de sociedade que já deu o que tinha a dar. Todos os sectores mencionados foram afectados porque tudo está conectado nesta era de globalização, logo, não basta acorrer a um sector específico para solucionar a crise, há que repensar o modelo que temos vindo a seguir. É aqui que reside a oportunidade de mudança de paradigma.

Já são muitas as empresas que apostam na chamada “economia verde”, ou seja, em formas de produção mais limpas e que respeitem o meio ambiente e espera-se que este tipo de economia venha a gerar inúmeros postos de trabalho.

As mudanças climáticas estão na ordem do dia mas finalmente existe a percepção de que as mesma terão custos associados. Assim, elencar medidas de protecção do meio ambiente é agora visto como um bom investimento.

No final do ano em Copenhaga vão ser discutidos os modos de actuação da chamada “economia verde”. Espera-se um novo protocolo que substituirá o de Quioto. Vamos ver para que lado pendem as forças, se para o lucro a qualquer preço ou para um futuro sustentável para todos.

A crise traz consigo os ventos e as sementes da mudança mas ainda é cedo para ver os frutos. Importa manter as coisas em perspectiva sem perder de vista os pequenos passos que estão já a ser dados.


Definição de Crise na Wikipédia "Oriunda do latim, o termo crise tem o mesmo sentido da palavra vento. Indica, um estágio de alternância, no qual uma vez transcorrido diferencia-se do que costumava ser. Não existe possibilidade de retorno aos antigos padrões."

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Fragmentos

foto residente no blog andrewssouza.blogspot.com

Fragmentos do que somos e do que gostaríamos de ser. Somos fragmentos dispersos que se ligam por ténues linhas agregadoras. O que não está ao nosso alcance é sempre o que mais buscamos no intimo das nossas ambições. Vamos além. Muitas vezes vamos além do que nos é humanamente possível e isso corrói-nos as forças e a vontade. A esperança sempre nos visita por vezes de modo tímido mas é ela que nos sustenta por dentro, para não nos deixar moribundos, num mundo cada vez mais incerto e caótico. Eu acredito que ainda é possível a dança do riso, apesar de ela por vezes se me afigurar vã, mas há que ir em frente e acalentar sonhos e esperanças de peito aberto.

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Mentiras na Net

Muitos de nós já vimos os vídeos que têm circulado na net, mostrando jovens que fazem, alegadamente pipocas activando telemóveis apontados para grãos de milho.

Eis um exemplo:




Os vídeos circularam pelas nossas caixas de mail com mensagens do tipo "se os telemóveis podem fazer pipocas o que farão aos nossos neurónios?".
Muitos reencaminharam apressadamente a mensagem para amigos e conhecidos, pois claro, convém alertar...

Mas será mesmo que todo o alerta que circula na net é de levar em conta?

É que neste caso tudo não passou de um truque publicitário que antecedeu um spot da Cardo Systems para promover os seus auriculares bluetooth, ora vejam:




Além do mais, segundo a revista Science & Vie deste mês, num artigo sobre este tema, seria necessária uma descarga de 700 watts para fazer pipocas e um telemóvel tem em média uma descarga de apenas 2 watts.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Grameen Bank

O Fim da Pobreza (económica e de mentalidade?...)


Digam o que disserem os mais negativistas, ele há coisas boas a acontecer por aí. Seria bom, se pudéssemos virar o foco para elas.

Uma das coisas mais fantásticas que tem vindo a mudar, para melhor, muitas vidas, chama-se Grameen Bank e é "o primeiro banco do mundo especializado em microcrédito". O Grameen Bank ganhou o Prémio Nobel da Paz do ano 2006 juntamente com seu fundador Muhammad Yunus.

A ideia da criação do Grameen Bank nasceu após o seu fundador, que estudou economia nos EUA, ter percebido, ao voltar ao Bangladesh, o seu país natal, em 1975, que os mais pobres simplesmente não podiam melhorar as suas condições de vida devido ao facto de viverem sob o jugo dos agiotas ou prestamistas, que até então surgiam como única possibilidade de sobrevivência para muitas famílias. Muhammad Yunus percebeu que aquelas pessoas precisavam de uma oportunidade para realizar dinheiro sem serem escravizadas economicamente. A forma de o fazer seria através de um microcrédito que não pedisse garantias, nem cobrasse exorbitantes taxas, condições que, do seu ponto de vista, têm constituído os principais entraves à erradicação da pobreza extrema nos países do hemisfério sul.

A este propósito diz Muhammad Yunus numa entrevista dada à revista "Courrier Internacional" de 2008/06: "Critico o dogma segundo o qual não podem ser atribuídos empréstimos sem garantia, sobretudo aos mais pobres. (...) Os princípios actuais do sistema bancário impedem que metade da população mundial participe na vida económica. Não apenas nos países dos sul mas também nos EUA e na Europa. Os bancos tradicionais exigem às pessoas que sejam solventes, antes de lhes emprestarem dinheiro. Mas para que servem, se não ajudam as pessoas a sair de uma situação difícil, a criar valor e trabalho." E acrescenta ainda que: "Segundo um inquérito recente, 64% daqueles a quem concedemos empréstimos por cinco anos, saíram da pobreza crónica."

Este microcrédito favorece as chamadas actividades "informais", ou seja, a manufactura e venda de artigos diversos, as pequenas reparações, em suma os pequenos negócios familiares. Isto porque, segundo Muhammad Yunus "não promover nada para além do regime assalariado parece-me terrivelmente limitado. Ver apenas o homem como um ser que procura um ordenado parece-me uma concepção muito limitada do ser humano. É uma forma de escravidão.(...) Levamos vidas rígidas, repetindo diariamente os mesmos ritmos de trabalho. Corremos para o trabalho, corremos de volta para casa. Esta vida robótica não me parece um progresso. (...) O homem é considerado apenas como um agente económico, um empregado, uma assalariado, uma máquina. É uma visão unidimensional do humano. Ser assalariado deveria ser uma opção entre várias."

A isto chamo eu um verdadeiro pensador e que, mais do que pensar, age no tecido económico-social implementando as suas ideias.


A prova do sucesso do Grameen Bank, é que já distribuiu 6 mil milhões de dólares a 150 milhões de famílias, sem exigir garantias e com uma taxa de reembolso de 95%.

Que tal aproveitar ideias como estas para fazer face à crise que se vive actualmente no ocidente?

Que tal deixarmos de ver o ser humano como uma mera peça de uma engrenagem que o subjuga continuadamente, e devolvê-lo a si próprio?

sábado, 21 de junho de 2008

Pelo direito à diferença...





"Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sózinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?"

Fernando Pessoa

domingo, 15 de junho de 2008

Pensar a Medicina

Excerto do livro que estou a ler actualmente - “Loucos são os Outros” do Psiquiatra Jaime Milheiro, publicado no ano 2000 pela editora “Fim de Século”.


Pensar a Medicina

No fim do século mais científico da História, temos igualmente a impressão de estar no fim duma época quanto à teoria e prática da Medicina e quanto à concepção da Saúde/Doença. Por várias razões, mas sobretudo pelas bastante previsíveis e em vários ângulos anunciadas mudanças de entendimento sobre o modo de funcionar do ser humano, provindas de aprofundamentos recentes. Estaremos no fim duma época quanto às considerações fundamentais sobre o conjunto funcionante que cada indivíduo representa e também quanto ao que daí resultará sobre a prática clínica. Reflectir sobre isso interessa aos médicos, aos doentes, a toda a gente.

I

Como funciona o ser humano? Porque funciona o ser humano, o que o faz funcionar? Por estar vivo, por obedecer à fisiologia, aos princípios da vida...será uma resposta um tanto simplória, concordaremos, além de pouco estimulante para quem tiver a obrigação profissional de sobre isso reflectir. E o médico vê-se obrigado a fazê-lo, porque a sua prática diária vive impregnada de perguntas deste tipo, decorrentes: porque adoeceu aquela pessoa, porque se alterou o funcionamento que até então proporcionava sentimentos de Saúde, como se desmembrou tudo isso?

Evidentemente, é sempre possível evitar a reflexão, no médico ou no doente (pensar dói muitas vezes, ou é inútil), remete-se para um “isso não é comigo”, reduzindo a preocupação apenas à forma de tratar a úlcera ou a bronquite. É tentador afirmar: “sou um técnico, ou ... sou um doente... só me preocupo com isso.” Mas tentar corrigir o defeito do móvel sem pensar na interligação das gavetas , nem no movimento geral da sua construção, vai ser cada vez menos satisfatório, porque se vai sedimentando um sentimento natural de pesquisa em toda a gente. O refúgio banal de atribuir causalidades externas a tudo o que se passa, vai notoriamente perdendo terreno, na cultura. As doenças obedecerão, nesse tipo de pensamento, na realidade efectiva ou na realidade simbólica, ao esquema bacteriano descoberto por Pasteur: vêm de fora. Extrapolando das bactérias propriamente ditas, para muitas outras razões análogas habitualmente utilizadas, as doenças, neste modelo “bacteriano”, serão produto dum corpo estranho, dum invasor, gerador da “infecção” naquele órgão. Competirá à medicina, como objectivo final, a esforçada descoberta do antibiótico suficientemente eficaz para o liquidar. Temos todos (médicos, doentes e candidatos a esses dois estados) este esquema de tal forma montado dentro de nós, apreendêmo-lo e conservámo-lo com tal intensidade, que sem darmos por isso constantemente o supomos e utilizamos. Mesmo em circunstância onde é totalmente absurdo fazê-lo. Verdadeiro automatismo ou reflexo condicionado, com enorme sucesso em múltiplas situações, na medicina, na cirurgia, desse sucesso colhemos apressada justificação para continuar.

Mas hoje não chega obviamente erradicar a bactéria, ou carpinteirar o órgão.

II

Essas leituras, extremamente parcelares, vêm sendo substituídas progressivamente por outras que procuram estudar, compreender e tratar o doente sem o excluir da doença, na génese, no trajecto e na finalização. A doença deixa de ser um corpo estranho, uma “bactéria” hospedada num “órgão”, susceptível de ser posta na rua, para ser considerada um processo geral psicossomático. Sempre!

As grelhas de pensamento que proporcionaram ciências actuantes na brilhante “medicina do órgão” que temos vindo a conhecer, as tecnologias aplicadas à terapêutica que muito justificadamente têm espantado a humanidade e vão continuar a fazê-lo, vêm-se hoje obrigadas a essa enorme revisão. É que os avanços definidos pelas linhas que marcaram o nosso tempo, se afunilaram numa faixa cada vez mais estreita e se afastaram muitíssimo do sofrimento próprio do portador individualizado. Excessivamente cega, impessoal, essa faixa encaminhou-se na prática para o maquinal ossificado, que, embora tecnicamente perfeito, ultrapassou o risco vermelho e quase caiu em zona de completa artificialidade. Tornou-se ao mesmo tempo muito complacente de si mesma, nada do doente, escurecendo-se cada vez mais no computador, se não houver correcção de rota. Conhecimentos e desenvolvimentos não põem em causa a sua validade, mas questionam a sua possibilidade de integração no conjunto da Pessoa. Áreas múltiplas, nas ciências físicas, nas ciências humanas, nas ciências psicológicas, no infinitamente pequeno, na vertente orgânica mensurável em grupo e susceptível de comparação, na vertente mental incomparável entre indivíduos, têm aberto portas impensáveis até há pouco. Verifica-se hoje que, muito mais do que as partes ou a soma delas, a grande questão é o funcionamento global interior, com regras e princípios essenciais, mal conhecidos ainda, mas em pleno movimento de descoberta.

Nessa encruzilhada nos encontramos hoje, na encruzilhada da globalização. Curiosamente, retorna-se desse modo à medicina anterior a este século, à medicina anterior à “medicina de órgão”, conduzindo no entanto na bagagem a ciência entretanto adquirida.

III

Cada novo processo terapêutico, mesmo eficaz, terá sempre efeito temporário porque não invalida o funcionamento descompensado, físico ou mental, que dentro de si o doente contém e a doença sinaliza. A terapêutica adia, compensa ou substitui, mas nada resolve se os mecanismos interiores, fisiológicos, psicológicos, não forem alterados. Comprova-se agora o que toda a gente sabia, mas a cultura deste século ilusoriamente procurou desfazer: consertar por um lado equivale a romper por outro, se nada mudar no contexto da pessoa. A ciência médica inúmeras vezes esqueceu isto, junto de si própria e junto dos doentes, nas famílias, na opinião pública, mais vincadamente ainda na tão propagandeada “medicina de ponta”. Culturalmente intoxicados, por conceitos terapêuticos grandiosos e por secreto desejo de imortalidade, todos embarcamos alegremente nessa cumplicidade e participamos altivamente nos milhões gastos em zonas inúteis, ou no benefício duma industria farmacêutica cada vez mais voraz e lucrativa. Há uma enorme desproporção entre o aproveitamento afectivo e a justa racionalidade nos objectivos terapêuticos, que inconscientemente se alimenta, ou sobrealimenta, no dia-a-dia. Ter consciência disso, dizê-lo abertamente, só pode ser útil e pedagógico, embora por norma se faça justamente o contrário para não ferir o estabelecido.

IV

A angustia médica é quase sempre idêntica à do doente, nessa procura excessiva. Por isso o médico colabora prazenteiramente e desagua no “sou técnico...nada mais do que isso”. Cumpridas da sua parte as baterias sobre estômagos, corações ou cérebros, segundo a arte, nada mais se lhe poderá pedir ou assacar. É tentador e muito mais fácil. Pragmatismos deste tipo servem e tranquilizam, em ambas as direcções.

Estamos na verdade de tal forma condicionados pela tecnologia, pela noção bacteriana da doença, pela busca do “antibiótico” físico ou mental, pelo isolamento do órgão, que em muitos locais, até os processos sistémicos já bem conhecidos são vistos deformadamente como novos órgãos! Como se fossem outros órgãos. O sistema imunitário, por exemplo, global e globalizador, movido emocionalmente, “psico-imunitário” como tudo indica, é muito facilmente considerado por muitos outro órgão, que se divide e isola. Atribuem-se-lhe nesse caso as funções específicas clássicas, contrariando tudo o que dele já se sabe como “gestor” das razões íntimas da pessoa, com influências bem conhecidas na génese de muitas doenças, cancro incluído.

V

O narcisismo pessoal ou profissional verte-se muitas vezes no discurso megalómano de ilusões, ao certificar a pequenez e a limitação que nos caracteriza.

Toda a ciência médica está a evoluir implacavelmente, no sentido que referimos. Mas, como sempre aconteceu na história das ciências e das ideias, os avanços acarretam perdas, sobretudo perdas de ilusões, quando obrigam a novas leituras. Mudam necessidades, são por isso bastante difíceis de instalar.”



Há tempos escrevi aqui alguns artigos sobre “Saúde Integral” onde abordei, do modo limitado que é possível a um leigo fazê-lo, alguns destes temas. É pois com especial prazer e contentamento, que publico agora este texto de um reconhecidíssimo Psiquiatra português.

Não posso deixar de sentir um misto de alegria e alívio, ao constatar a existência de personalidades como a de Jaime Milheiro, atentas, questionadoras, interventivas e transformadoras das leituras e mentalidades, que por vício ou preguiça, se instalaram e cristalizaram perigosamente, ao longo dos tempos na nossa sociedade.

Mudanças são necessárias e urgentes, todos o reconhecemos, mas elas não se fazem se não pusermos em prática a capacidade questionadora que Deus nos deu. A todos!

Bem-haja Dr. Jaime Milheiro, entre outras coisas, pela lição de coragem e de ousadia sempre necessárias nos processos de mudança, mas também pela pertinência de um texto ao qual ninguém pode ficar indiferente.

terça-feira, 10 de junho de 2008

Marrocos - Maio 2008

Uma viagem muito para além da viagem em si!







Do meu ponto de vista, de quem já viajou alguma coisa, a viagem começa e acaba em cada um de nós. Os países, a música, os pratos típicos desconhecidos, são como facetas pessoais, ocultas ou ainda não exploradas. De certo modo, somos todos viajantes à procura de nós próprios, ainda que, muitas vezes, sob o pretexto ou através da procura exterior.

Marrocos foi uma viagem que não vou esquecer!

Inch' Alla!

terça-feira, 6 de maio de 2008

Pausa

foto residente no site:floreca.no.sapo.pt


Este blog vai fazer uma pausa de algumas semanas.
Regresso previsto para a última semana de Maio.

Até lá, deixo uma questão que me foi colocada ontem:

- Será o acto de Blogar um exercício meramente narcisista?
- Quais os reais benefícios de se manter um blog?

Até ao meu regresso, fiquem bem.

Pink

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Manvantaras e Pralayas


Part I

Manvantara - Um dia de Brahmâ - período de manifestação do Cosmos equivalente a 4.320.000.000 anos solares
(um dia)

Pralaya - Uma noite de Brahmâ - período de repouso do Cosmos equivalente a 4.320.000.000 anos solares
(uma noite)

um Ano de Brahmâ
-
3.110.400.000.000 anos solares
(um ano)

Mahamanvantara
- 100 anos de Brahmâ ou período completo da Idade de Brahmâ - período de actividade do Cosmos equivalente a 311.040.000.000.000 anos solares
(uma vida)

Mahapralaya
- período de inatividade do Cosmos equivalente a 311.040.000.000.000 anos solares
(inactividade, morte, período entre vidas)

Os termos acima são encontrados na tradição Hindu, anterior ao Cristianismo e mais recentemente, (Séc. XIX) na Teosofia.


Part II

Discover Magazine - April 2008, pag. 54 - "The Day Before Genesis"

"For Paul Steinhardt and Neil Turok, the Big Bang ended on a summer day in 1999 in Cambridge, England. Sitting together at a conference they had organized, called “A School on Connecting Fundamental Physics and Cosmology,” the two physicists suddenly hit on the same idea. Maybe science was finally ready to tackle the mystery of what made the Big Bang go bang. And if so, then maybe science could also address one of the deepest questions of all: What came before the Big Bang?

(...) In the standard interpretation of the Big Bang, which took shape in the 1960s, the formative event was not an explosion that occurred at some point in space and time—it was an explosion of space and time. In this view, time did not exist beforehand. Even for many researchers in the field, this was a bitter pill to swallow. It is hard to imagine time just starting: How does a universe decide when it is time to pop into existence?

(...) The prospects for making sense of the Big Bang began to improve in the 1990s as physicists refined their ideas in string theory, a promising approach for reconciling the relativity and quantum views. Nobody knows yet whether string theory matches up with the real world—the Large Hadron Collider, a particle smasher coming on line later this year, may provide some clues (...)

The key concept turned out to be a “brane,” a three-dimensional world embedded in a higher-dimensional space (the term, in the language of string theory, is just short for membrane). “People had just started talking about branes when we set up the conference,” Steinhardt recalls. “Together Neil and I went to a talk where the speaker was describing them as static objects. Afterward we both asked the same question: What happens if the branes can move? What happens if they collide?”

A remarkable picture began to take shape in the two physicists’ minds. A sheet of paper blowing in the wind is a kind of two-dimensional membrane tumbling through our three-dimensional world. For Steinhardt and Turok, our entire universe is just one sheet, or 3-D brane, moving through a four-dimensional background called “the bulk.” Our brane is not the only one; there are others moving through the bulk as well. Just as two sheets of paper could be blown together in a storm, different 3-D branes could collide within the bulk.

(...) Three years later came a second epiphany: Steinhardt and Turok found their story did not end after the collision. “We weren’t looking for cycles,” Steinhardt says, “but the model naturally produces them.” After a collision, energy gives rise to matter in the brane worlds. The matter then evolves into the kind of universe we know: galaxies, stars, planets, the works. Space within the branes expands, and at first the distance between the branes (in the bulk) grows too. When the brane worlds expand so much that their space is nearly empty, however, attractive forces between the branes draw the world-sheets together again. A new collision occurs, and a new cycle of creation begins. In this model, each round of existence—each cycle from one collision to the next—stretches about a trillion years. By that reckoning, our universe is still in its infancy, being only 0.1 percent of the way through the current cycle.

The cyclic universe directly solves the problem of before. With an infinity of Big Bangs, time stretches into forever in both directions. “The Big Bang was not the beginning of space and time,” Steinhardt says. “There was a before, and before matters because it leaves an imprint on what happens in the next cycle.”

The standard model of the early universe predicts that space is full of gravitational waves, ripples in space-time left over from the first instants after the Big Bang. These waves look very different in the cyclic model, and those differences could be measured—as soon as physicists develop an effective gravity-wave detector. “It may take 20 years before we have the technology,” Turok says, “but in principle it can be done. Given the importance of the question, I’d say it’s worth the wait.”


Meu Deus! e tanto alvoroço para separar o conhecimento mistico ou religioso do conhecimento ciêntifico! Ainda não percebereram que ambos convergem na mesma direcção? - "Seek and you sall find" - diz-vos alguma coisa?

Claro que (e necessariamente) os métodos são distintos. Mas não vos parece que os métodos ciêntificos são desmesuradamente mais lentos, artificiais e caros para o ser humano (em todos os sentidos que a palavra caro pode aqui assumir)?

quinta-feira, 10 de abril de 2008

A geração do ecrã

O texto que se segue é da escritora Alice Vieira, e foi publicado no JN a 30 de Março de 2008. Publico-o aqui por merecer a minha total concordância.

“Desculpem se trago hoje à baila a história da professora agredida pela aluna, numa escola do Porto, um caso de que já toda a gente falou, mas estive longe da civilização por uns dias e, diante de tudo o que agora vi e ouvi (sim, também vi o vídeo), palavra que a única coisa que acho verdadeiramente espantosa é o espanto das pessoas.

Só quem não tem entrado numa escola nestes últimos anos, só quem não contacta com gente desta idade, só quem não anda nas ruas nem nos transportes públicos, só quem nunca viu os "Morangos com açúcar", só quem tem andado completamente cego (e surdo) de todo é que pode ter ficado surpreendido.

Se isto fosse o caso isolado de uma aluna que tivesse ultrapassado todos os limites e agredido uma professora pelo mais fútil dos motivos - bem estaríamos nós! Haveria um culpado, haveria um castigo, e o caso arrumava-se.

Mas casos destes existem pelas escolas do país inteiro. (Só mesmo a Sr.ª ministra - que não entra numa escola sem avisar - é que tem coragem de afirmar que não existe violência nas escolas.)

Este caso só é mais importante do que outros porque apareceu em vídeo, e foi levado à televisão, e agora sim, agora sabemos finalmente que a violência existe!

O pior é que isto não tem apenas a ver com uma aluna, ou com uma professora, ou com uma escola, ou com um estrato social.

Isto tem a ver com qualquer coisa de muito mais profundo e muito mais assustador.

Isto tem a ver com a espécie de geração que estamos a criar.

Há anos que as nossas crianças não são educadas por pessoas. Há anos que as nossas crianças são educadas por ecrãs.

E o vidro não cria empatia. A empatia só se cria se, diante dos nossos olhos, tivermos outros olhos, se tivermos um rosto humano.

E por isso as nossas crianças crescem sem emoções, crescem frias por dentro, sem um olhar para os outros que as rodeiam.

Durante anos, foram criadas na ilusão de que tudo lhes era permitido.

Durante anos, foram criadas na ilusão de que a vida era uma longa avenida de prazer, sem regras, sem leis, e que nada, absolutamente nada, dava trabalho.

E durante anos os pais e os professores foram deixando que isto acontecesse.

A aluna que agrediu esta professora (e onde estavam as auxiliares-não-sei-de-quê, que dantes se chamavam contínuas, que não deram por aquela barulheira e nem sequer se lembraram de abrir a porta da sala para ver o que se passava?) é a mesma que empurra um velho no autocarro, ou o insulta com palavrões de carroceiro (que me perdoem os carroceiros), ou espeta um gelado na cara de uma (outra) professora, e muitas outras coisas igualmente verdadeiras que se passam todos os dias.

A escola, hoje, serve para tudo menos para estudar.

A casa, hoje, serve para tudo menos para dar (as mínimas) noções de comportamento.

E eles vão continuando a viver, desumanizados, diante de um ecrã.

E nós deixamos.”

Alice Vieira


E eu pergunto: - Até quando vamos nós continuar a atacar, desesperada e desnorteadamente, a poluição na foz do rio, enquanto, sistematicamente ignoramos as descargas poluentes junto à nascente?

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Deus

foto residente no blog: trintaetresdc.blogspot.com

Nos últimos dias, vá-se lá saber porquê, quando falo com alguém, a conversa acaba por ir parar à religião. Ora, eu não pratico nenhuma religião, apesar de ter tido, como muitos, uma educação baseada no Cristianismo.


Por outro lado, estou longe de ser ateia e, ainda menos, agnóstica. Sempre acreditei em Deus (apesar de, durante um certo período da minha vida, me ter resignado a uma crença balofa).


Mas a vida sempre mostra o caminho de "regresso" a Deus, a quem não desistiu totalmente de o percorrer. Foi o que aconteceu comigo.

Nesse caminho várias coisas me surpreenderam, nomeadamente, a questão das provas da existência de Deus. Será que alguém espera ver Deus sair de um tubo de ensaio? ou de um acelerador de partículas? ou talvez, que ele espreite pela lente de um telescópio espacial?...

Que tal deixarmos de procurar Deus como se ele estivesse lá fora no quintal, escondido entre as alfaces, e procurarmos antes, no único sítio onde Ele pode ser encontrado: dentro de cada um de nós?


Bastante mais sensato - parece-me.

Há muito que me afastei da Igreja e respectivas missas (que mais não fazem do que repetir ladaínhas) e há muito que iniciei um percurso "religioso", por conta própria, bastante solitário, diga-se de passagem, porque isto de não seguir a "carneirada", quer queiramos, quer não, transforma-nos em "ovelhas tresmalhadas".

Neste meu percurso, cruzei-me com várias fontes e ensinamentos. Fui extraindo de cada um, o que cada um tinha de melhor. E encontrei uma doutrina com a qual, efectivamente, me identifico: Chama-se Teosofia.

Teosofia deriva do termo grego "theosophia" - Theo - Deus + Sophia - Sabedoria, que é como quem diz: Sabedoria Divina.

Assenta no pressuposto de que todas as religiões têm um tronco comum, e propõe-se revitalizar esses ensinamentos perdidos. Têm afinidades com o Hinduísmo, o Budismo e o Gnosticismo entre outros.

Fica aqui o link para quem quiser, conhecer melhor a TEOSOFIA

Há muitos caminhos para Deus, mas todos começam do lado de dentro e não do lado de fora do nosso Ser.


Namasté!


As Novas Ditaduras

Este post vem a propósito de uma senhora (que não conheço mas com quem me cruzo algumas vezes).
Esta senhora não tem uma perna e por isso apoia-se em canadianas. O que eu não compreendo é porque razão, o único pé que a senhora tem, vive (des)apoiado num sapato de salto de 7 cm!

Quer dizer, mesmo com dois pés, andar em cima de saltos altos já me parece arriscado, mas só com um?!...e com muletas?!...

Será que esta senhora acha mesmo preferivel, cair e partir a unica perna que lhe resta, a usar sapatos confortáveis?

Alguém explica ao mundo que a ditadura da imagem não tem trono nem rei? que é auto-imposta, que não faz as pessoas mais felizes, nem mais saudáveis, antes pelo contrário!...

Tanta luta pela liberdade e é assim que a usamos? Ou será que o ser humano simplesmente não sabe ser livre?

segunda-feira, 31 de março de 2008

Grandes Erros da Ciência

Há dias comprei o número especial da Scientific American, edição brasileira, sob o título " Os grandes erros da ciência"

Sob o titulo podemos ler a frase: "Na actividade cientifica, errar é a regra, não a excepção. Só aceitando esse facto, o conhecimento pode avançar."

Isto parece-me importante ser dito e como diria o BB - "há que dizê-lo com frontalidade."

Foi com esse espírito de frontalidade que o editor escreveu no editorial da referida revista, o que a seguir transcrevo:

"O território e o mapa

A aventura do conhecimento é um processo assimptótico(1) infinito. Assimptótico(1) porque nos aproximamos, cada vez mais, da meta planejada. Infinito porque jamais a alcançamos. Por melhores que sejam nossas representações da realidade, o real, ele mesmo, encontra-se sempre um passo adiante. E, sucessivamente desvelado, ainda esconde, sob incontáveis véus, sua fugidia nudez.

A aventura do conhecimento é um processo errático e dissipativo. A frase que inicia o parágrafo anterior talvez seja, também ela, uma imagem falsa – ou, no melhor dos casos, apenas meia verdade. Pois sugere uma linearidade, um carácter necessariamente progressivo, que a empreitada do conhecimento, de fato, não tem. Caminhamos às apalpadelas. E os conceitos que construímos ontem, e descartamos hoje com desdém, talvez tenham de ser retomados amanhã, em uma nova curva da espiral evolutiva. O escritor Arthur Koestler comparou a actividade científica ao sonambulismo, demonstrando, com exemplos superlativos, que o avanço da ciência ocorreu, muitas vezes, a despeito das mais caras convicções dos seus protagonistas ou até mesmo contra elas.

A impossibilidade de atingir a verdade absoluta é inerente à actividade racional, e repousa na dicotomia entre o sujeito (o observador) e o objecto (o observado) – dicotomia que se mantém mesmo quando o objecto em pauta é a própria subjectividade. Enquanto persistir a mais ténue barreira entre o observador e o observado, a ciência será sempre uma obra inacabada, precária, provisória. Por isso, na práxis científica, o erro é a regra e não a excepção, um constituinte fundamental e não mero acidente de percurso.
Por isso, também, a reflexão sobre o erro nos ensina mais sobre a natureza da ciência do que a exaltação triunfalista de seus êxitos.

Dedicada a grandes erros, cometidos por grandes cientistas, esta edição posiciona-se claramente a favor da ciência, e não contra. A ciência não é apenas uma actividade vital para a sobrevivência e o desenvolvimento da humanidade. É também uma das mais belas produções da inteligência humana. Mas somente a aceitação de seu carácter limitado, parcial e incerto pode impedir que se transforme em um fossilizado sistema de crenças.

Na concepção e execução deste número especial de SCIENTIFIC AMERICAN, inteiramente produzido no Brasil, contamos com a inestimável colaboração de Roberto de Andrade Martins, considerado, com justiça, um dos maiores historiadores da ciência do país. A ele e a todos os autores que, sob sua competente coordenação, tornaram esta edição possível, nossos sinceros agradecimentos."

José Tadeu Arantes, editorScientific American-Brasil

Por isso amigos, questionem. Não se "encostem" em supostas "verdades absolutas" porque elas não existem.

(1) "A palavra assimptótico deriva do grego asymptotos que possui o significado de "não coincidente". É conhecido o termo "assimptota" para designar a recta que, em relação a uma determinada curva, se lhe aproxima indefinidamente mas sem que haja a possibilidade de ambas virem a coincidir. Ao que parece o termo surge pela primeira vez a propósito da hipérbole y2 - x2 = 1, e das suas assimptotas y = x e y = - x."

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

The Invitation

Já li várias traduções "assassinas" deste poema, um dos meus preferidos de sempre, pela força, pela coragem, pela ousadia, pela honestidade crua, despida de pieguice, mas sobretudo, por ser um convite (desafio) à capacidade de se ser fiel a si próprio e ao que é verdadeiramente importante na vida, sem medo e sem disfarce, usando a coragem para se ser autêntico e inteiro e não ao serviço de valores externos, impostos por uma sociedade que nos impele a criar e defender uma imagem, que raramente é um verdadeiro reflexo de quem somos de facto.
Assim, faço questão de deixar aqui o original: "The Invitation"

Desfrutem, partilhem mas por favor não estraguem! :)